quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Impermanência

Quando no mar, me encantavam as conchas. Desde pequena ao colocar um grande búzio no ouvido e, espantada, ver que lá cabia o mar do mundo. Diligente, continuei  catando minuciosamente conchas pela vida. Observando suas formas, cores, classificando-as quanto à beleza. Se porventura apresentassem orifícios causados por um antigo habitante, viravam colar.
Das conchas, estendi-me às pedras. A primeira, que ainda tenho, foi colhida na Argentina. Um seixo escuro, palavra que aprendi  então, com uma incrível faixa branca ao seu redor, como  uma fita de presente, estampada com natural arte rupestre. A partir daí não parei mais.  Uma pedra linda de lago passou a morar ao lado da estrela do mar.
Então, eu era jovem. O mar e eu éramos parecidos. Sempre lá, sempre em diferentes tumultos. E pedras e conchas são eternidades.
Hoje, nas montanhas da vista, me encantam os efêmeros. Diariamente um espetáculo exclusivo! Ah! não há Cirque du Soleil que me deslumbre mais do que o malabarismo do beija-flor! E aí, percebo que os tomates nascem, e me emociono de verdade. E me encanto com o nascer das flores, lamento a morte das violetas, mas sei que a vida é assim.  O tempo delas é curto como o meu.
Se na juventude a ilusão do pra sempre se confirmava na beleza das pedras e das conchas, e meu coração era instável como o mar, hoje, na maturidade, me identifico com o aqui e agora. Com o voo de um bando de garças, com a corrida dos cães atrás dos bezerros. E me sinto irmã das montanhas fixas e verdes, que a erosão lenta modifica em grandes tempos, assim como eu ao espelho.
Quem nunca ouviu o mar dentro de uma concha perdeu grandes possibilidades da imaginação.
Quem nunca se emocionou com a joia preciosa de um beija-flor sabe pouco da beleza.

E os dias passam. Haja filosofia!

Nenhum comentário:

Postar um comentário