segunda-feira, 15 de julho de 2013

Vidas molhadas 4- Regando a flor


A fome era muita. Já chegava na escola com fome. Via os coleguinhas  com a merenda no embornal. Ela não levava. Mas sabia que na hora do recreio a professora ia pedir para algum aluno ir até a padaria comprar um pão com mortadela. Era uma honra ser escolhido! Ela caprichava na caligrafia pra ficar bem bonita e a professora gostar dela. Então, se ela se elas fosse bem boazinha , a professora a escolhia ela e  ela podia voltar da padaria cheirando o pão. Que cheiro bom! O pão quentinho, a mortadela perfumada e gelada e bastante manteiga.Podia até fingir que era ela quem comia aquele pão. Torcia, então, para que houvesse comida em casa. Em geral só tinha arroz, aí a mãe mandava ela ir catar no mato tomate de árvore para comer.  Ela ia com os irmãos.  Se fosse uma irmã bem boazinha, ela comia uns dois ou três frutos antes e os irmãos não contariam para a mãe.

Era bonitinha , sabia disso. Não tinha mais um sorriso bonito porque dentes cariavam e o dentista que aparecia de vez em quando arrancava os dentes que doíam. Mas como era boazinha, o dentista  trouxe um dia a dentadura e ela soube agradecer.

Pai e mãe já não tinha, os irmãos crescidos também se foram para outros lugares. Ficou na casa do tio. O tio matava o boi, tirava o couro, fazia sela, coisas bonitas.  Não sabia escrever mas fazia selas enfeitava, conhecia a coisa bonita. Foi ela quem escreveu com sua letra bonita o cartaz que ficou na porta: “Artezanato de Couro.”Tá lá até hoje. Ainda com Z. E ele soube agradecer. Deu a ela um cinto todo enfeitado. Cabia direitinho na cintura dela. Ele sabia o que era coisa bonita, e ela era boazinha e soube agradecer.

Vendeu o cinto , como era boazinha e sabia agradecer , ajudava aqui e ali. Juntou o dinheiro para passagem e foi pra cidade grande. Que mundo de barulho! Quanta coisa bonita! Não foi difícil arrumar um emprego em um posto de gasolina. Agora tinha comida todo dia. Doce, sanduíche de mortadela à vontade. Bala, sorvete, e sabia fazer conta e o dono do posto viu que ela era bonitinha , pagava pra ela o quarto. E ela soube agradecer.

A mulher dele implicou e ela foi pra outra cidade.  Alugou um quarto em uma pensão e logo ficou amiga da dona da pensão. Ela sabia que se fosse bem boazinha as pessoas gostariam dela. Assim como aquele homem que conheceu na padaria comendo pão com mortadela. Era um senhor distinto. Já sabia que tinha de ser boazinha e aprendera mais uma palavra que anotou com sua letra bonita pra não escrever: discreta.
E como ela era boazinha e sabia agradecer, não precisava mais pagar o quarto da pensão. A dona da pensão agora era sua amiga e trocou seus favores pelo quarto.  Pode juntar dinheiro.

Despediu-se do senhor distinto. Despediu-se da amiga e voltou pra sua cidade com a bolsa cheia: ia começar o seu próprio negócio! Primeiro comprou um pequeno terreno. Os sobrinhos ajudaram a levantar uma casa. Encheu a terra de flores!  Aprendeu a cuidar das flores e das árvores com um curso que o governo deu. Muita gente da cidade foi fazer o curso! Uns aprenderam a mexer com mel . Outros a mexer com flor.

Mas a cidade era pequena demais pra tanta flor. Pegou, então, o ônibus e foi para uma cidade maior. Como era boazinha e sabia agradecer alugou uma loja e foi vender na cidade as flores que plantava na sua casinha.
Mesmo com sua caligrafia bonita, mesmo sabendo fazer conta as contas não fechavam.  Foi até a padaria comer um pão com mortadela. Já estava com 40 anos, mas ainda bonitinha e muito boazinha. Um rapaz alto, forte  gostou dela. Ele tinha 20 anos. Bom demais. Levou ele pra casa e o plantou como uma flor. Podia agora pegar serviços de árvores! Ele cavava os buracos, carregava os sacos de terra. E ela sabia agradecer. E ficaram juntos por muito tempo.

Um dia acordou e o rapaz tinha ido embora. Correu para ver o pote que escondia dentro da terra com o dinheiro. A pá estava ao lado do pote aberto.
Suspirou.
Foi até a farmácia e comprou uma tinta com bastante água oxigenada.  Olhou-se ao espelho.  Os cabelos brancos, a pele enrugada, a  boca sem dentes.  Com a tesoura cortou os cabelos bem curtos.  Ficou loura. Colocou a dentadura e sorriu.
E foi até a padaria comprar um pão com mortadela. Quem sabe se fosse bem boazinha o padeiro não lhe cobrava?


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