sábado, 13 de julho de 2013

Vidas Molhadas 2


Quem o vê trabalhando na enxada não dá nada por ele. Pequeno demais. 1,60  de altura, certamente. Pé de moça.  Mas ele carrega o tronco como quem leva uma pena. E você se espanta.
Se chegar mais perto vai ver que ele fala. Está falando.
Se chegar mais perto ainda vai ver que seus olhos verdes são injetados de vermelho e faíscam enquanto ele fala:
“Pois ele queria o quê? Diz que não pode ver TV, que não pode assistir programa, nem futebol pro próprio Pastor ter uma TV escondida no armário? Ah, diabo de gente! Vou comprar a TV e não vou mais à igreja. A mulher quer TV e vai ser bom pra menina ver desenhinho. Vou comprar. Faço prestação.Sou  honesto, o nome é limpo, vão dividir. Comigo é assim , que nem esse mato que arranco, o mal se tira da raiz. E se ela quiser levar a menina já falei que passo cinco tiros na cara. Já fui preso e não presto mesmo, mas ela não leva. E esse tar de conselho tutelar que quer ensinar a gente a criar filho. Parei de beber, respeito a mulher, pra quê? Pra só querer comprar, comprar. Já botei o carro no nome dela. A dona lá reclamou porque chutei a vaca, chuto mesmo, não gosto de mulher me dando ordem. Preparei o trato com tanto carinho pra vaca espalhar tudo? Não quero saber se  é bicho, chuto mesmo, como arranco esse mato. Mal se corta pela raiz. E não é certo mesmo prender passarinho. Se vejo conto. O homi quis me pagar 200 reais pra eu pegar um canário. Num pego. Gasto 100 reais de trato pra canário ficar perto, fubá bom misturado com aquelas bolinhas que fazem o canário cantar bonito.  Mal tem que se cortar pela raiz. Ninguém  me quis. Nasci  nem pai nem mãe, deram pra avó me criar. Agora querem ajuda. Tá certo.É pai, tá doente, fui lá. Não tinha comida. 11 filhos e nenhum pra cuidar! E eu que ninguém me quis vou lá. Não tinha comida. Comprei um frango, a mulher fez comida, limpou a casa, o pai disse que pagava depois, disse deus lhe pague. Chega minha irmã, come da comida, e eu reclamei que ela tinha de cuidar do pai. Ela disse que não cuidava, falou alto,  me chingou, veio em cima de mim, dei-lhe um tapa na cara, o namorado dela chegou junto, eu ia dar um tiro na cara dele, mas meu irmão chegou e disse  que ia dar uma coça nele também. Isso  não tá certo. Tem que cortar o  mal pela raiz, essa merda de carrinho de mão tá com a roda presa, é mato , eu tiro. E vai chover. “

E o céu escurece, a chuva forte vem, trovoes e raios ameaçam. E quem está de longe vê o homem que a gente não dá nada por ele, levando o carrinho de mão cheio de verdura pro abrigo quando um raio cai. O carrinho de mão dá o choque. O homem larga o carrinho. O homem voa! Sobe uns 3 metros. Cai ao chão. Cai sacudido em pranto. 

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