quinta-feira, 11 de julho de 2013

Vidas Molhadas 1

Acordei pensando nele. Foi meu  primeiro professor aqui nas terras altas. Agachados na terra,ele me ensinava o nome de cada planta, de cada erva. Dizia a serventia.Eu as colhia, grudava na página ladeando as explicações.  Isso é pra salada, isso é pra dor de barriga, amassa assim e coloca mel. 
Mel, ele colhia mel. Quando uma colmeia nos amendrontava, lá vinha ele todo coberto de roupa feita de saco de linhagem, um véu sobre o chapéu e me explicava as coisas: “uma colmeia é a coisa mais linda, Dona Angela.”  E o litro de ouro de mel e os doces favos  faziam parte do sabor e do gosto das comidas. 
Aparecia pela capineira como os fantasmas do Campo dos Sonhos. Os filhotes latiam assustados, depois corriam para acolhê-lo. E ele não se zangava quando seu embornal era farejado e seu lanche consumido por dois ávidos filhotes. Passou a trazer mais um pão, só para dividir.
Comia sempre a mesma coisa: um litro de chá adoçado, batata frita com uns pedaços de carne e dois pães caseiros no lanche. `A noite, só batata frita. Era doido por batata frita. Nunca tinha ficado doente. Não sabia o que era dor ou febre.Banho, só de rio, gelado e à noite.  
Diziam que tinha muito dinheiro enterrado.
Diziam que estava se preparando para ser pastor.
Diziam...
 Magro, pele esturricada de sol ou frio, já que nunca colocava camisa ou sapatos, olhos verdes escuros de pântano lodoso num rosto bem desenhado apesar de ser um mapa hidrográfico de tantas linhas. 
De vez em quando, me trazia um belo livro sobre pássaros que pegara emprestado da estante do outro patrão. Uma vez, me trouxe o chocalho de uma cascavel que ele matara na vinda.
-Matar?
-  Não vejo problema algum . Posso pegar um boi que criei desde pequeno e matar e comer e apreciar.
Aquilo me assustava.
Ele me contava as histórias sofridas da infância. Paredes caiadas,  buscar a cal , lamparinas de banha, a não ser para recém nascidos, aí era uma bucha cheia de azeite. A mãe benzedeira que curava criança com vento virado com uma xícara virgem mais água de 3 rosas para a criança beber e o livrava de cobreiros com um talo da mamona passado no fogo 3 vezes e dizendo:-o que é que corto?
- cobreiro bravo!

 As surras que levava com vara de marmelo ajoelhado no milho; os pães cozidos na sexta feira, as saias longas das mulheres, e a única coisa que o pai comprava, que não era tirado da terra, era o sal e  conga pra ir pra escola.  Anotei tudo. Anotei suas noites em castigo sem comida, com fome na cama de cordas, sob a aspereza do cobertor tecido e tingido em casa. Anotei a vingança ao abrir a porteira de um vizinho e deixar os bois irem pela estrada e a consequente surra que levou. Suas roupas feitas de saco, a escolha do café da manhã: ou pão com leite ou café com farinha. Não podia repetir, nem  comer os dois. Enquanto isso, o pai, nas horas de folga, esculpia ex-votos e tudo o quanto era figura em cera de abelha. Copiava tudo, fazia flor e qualquer bicho em miniatura. Um artista! Depois, chicote.
Esse jeito herdou do pai. Não havia serviço que não fosse capaz de fazer. Levantava paredes, alinhava pedras com perfeição, criava mosaicos.
Um dia pagou 200 reais por um galo só porque ele “cantava bonito”.
Nos seus 40 anos tinha visto muita coisa mudar, mas ele mesmo, nunca saíra daqui.
E outro dia,  leu o poema de Fernando Pessoa que está na capela, seus olhos se encheram de água e me pediu uma cópia.
E comprou um cachorro, adorava o cachorro. Mas  o cachorro comeu o galo . Pegou a espingarda e deu um tiro no meio da testa do seu companheiro de banho nas águas frias, pois só tomava banho de rio.
Aí quis ir embora. Chorou  muito. Disse ser uma pessoa suja, imprestável.  E foi.  Despareceu na capineira.
Um ano depois o soubemos preso. Tinha passado a roçadeira na irmã.
Após temporada em manicômio, pagando cesta básica para alguma instituição foi solto.
Um ano depois soubemos de sua morte. Atropelado pois pedalava bem  no meio da estrada. 

Acidente ou escolha? 

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