domingo, 14 de outubro de 2012

O confuso mundo dos que foram esquecidos por nós


Dona Angela! Ontem, no programa do Ratinho..

É geralmente assim que começo meus dias. Ela é jovem, tem 31 anos, fez até a 4ª série.  Sabe ler e escrever, porém, o mundo para ela é uma confusão. 
Tem telefone celular. Mas ele se limita a telefonar, mostrar para que veio. Quando comprou um que batia fotos, após a primeira euforia, só dizia que “ele não prestava” pois não sabia lidar com o telefone. Usa o microondas dela, pois  o dela, para sua sorte, está quebrado e só funciona o botão de Um minuto. Se ficar frio, aperta o botão  novamente. 
O mundo é confuso.

- Dona Angela, São Jorge não mora na lua não, é mentira, né?

Surge de olhos arregalados a cada doença ou  morte na cidade.
O mundo é um mistério para todos, mas para ela, muito mais. 

- Dona Angela, ontem o programa do Ratinho mostrou umas pulseirinhas coloridas para criança faze sexo! Todo tipo de sexo tem lá, e se estourar a criança faz sexo! 

Esta foi a frase exata. Tentei decifrar.
- Calma, não existe pulseira que obrigue a fazer sexo
- Mas eu vi no Ratinho! 
- Calma, certamente é um código.. er.. uma linguagem.. er.. um símbolo... er.. (fiquei procurando alguma palavra que ela reconhecesse e conhecesse. Optei pelo Por exemplo)  
Acho que consegui, e ela ficou mais calma.  ( se alguém não sabe sobre o que estou falando, é o velho Pêra- uva e maçã mais incrementado pois o mundo mudou) 

- Dona Angela, meu pai nunca teve carteira assinada. 
- Ah, então seria bom que ele entrasse na justiça senão , se colocarem para fora do terreno ele não vai ter como viver. Ele trabalhou lá muitos anos?
- Ih.. muitos!
- Desde quando?
- Desde os anos 90!
- Então não foram tantos anos assim..
- Desde os 80!
- Pensa, quando ele começou a trabalhar lá?
- Eu ainda nem era nascida! 

Não consegue acertar receita, já tentei explicar várias vezes mas ½ xícara, para ela, significa Uma xícara mais Duas xícaras. 
E são pessoas inteligentes, juro! O marido é um gênio. Se tivesse nascido em boas condições seria dono do mundo. Inventa soluções para tudo, faz conta de cabeça, porém não tem noção de grandes quantidades. 
 – Ah.. esse motor é muito pesado, deve pesar uns 200 quilos...

Ouço de uma professora de português desiludida
:-Não pude fazer nada pois tinha de dar uma droga de uma aula. Recuperação. Recuperar o quê? 

Conta que uma aluna do segundo grau disse: - Ih, acabei de ver um acidente. Uma velha que estava na bicicleta foi atropelada !
- Bem, ela não devia ser tão velha já que estava na bicicleta.
- Era assim da idade da senhora.
- E quantos anos eu tenho?
- Sei lá, uns 80.
- Não, eu tenho 37.
- Então, velha assim. 

A professora tinha 60. 
Eles (pessoas não privilegiadas)  não tem noção de quantidade pois nunca tiveram mais do que 10 coisas da mesma classe. Nem garfos, nem copos. Qual a criança filha dos amigos que não tem pelo menos 20 Barbies? 
Eles não, mesmo que tenham varias bonecas.  E livros? Não tem. Nada tem tantos números assim e os professores não sabem lidar com isso. 
Uma geração que usa o computador , Orkut, mas que não sabe contar mais que 100. O que fazer?
E ensinar é difícil pois usam palavras diferentes. Por exemplo, a mesma professora, ao dar aulas sobre acentuação usou a palavra " nódoa". - Que é isso professora?  E ela, mancha, borrão.. e eles Ah... Nódjia!

Como educadora eu começaria a mostrar o mundo para eles, filmes, slides, só de coisas lindas e maravilhosas para que eles entendam o que eu entendi desde menina: o mundo é meu! 
O mundo é deles, e só aprendendo é que se toma posse do mundo. 

Também começaria o dia perguntando como foi o fim de semana para que aprendessem a contar história, contar o que viram no Ratinho ou no Faustão. Revistas, jornais. E leria Shaekespeare! como os shaekespearianos. Não adotaria os livros de “angela carneiro” mas livros para adultos, leríamos juntos. 
Livros novos, todos ganhariam livros novos. 
Aí eles teriam muitas páginas para contar e teriam a noção de quantidade. 

Fazer brinquedos de sucata é ótimo no pré escolar, para o grupo que não tem nada, mas apenas para desenvolver habilidades, no mais, os industrializados, como quem é de classe média tem. Aqui a gente tem mania de fazer instrumento de lata de lixo para o pobre. Os ricos compram os novinhos, mas para pobre só ensinam batucada em latão. Ora, viram amenina que toca piano? só tem 10 anos mas já sabe do mundo! 
Quando fiz faculdade, lá nos anos 70, uma pesquisa tinha demonstrado que crianças com nutrição comprometida ( ainda tenho a pesquisa, estava nos cadernos pedagógicos) melhoravam a aprendizagem quando recebiam objetos de enfeite em suas casas! Quer dizer, aquelas crianças do nordeste, onde a pesquisa se realizou, em casas pobres de barro ou não, aprendiam melhor se tinham quadros na parede, livros, revistas e brinquedos. 

Educar é muito mais do que ir ‘a escola e responder coisas para uma prova. E aprender é tomar posse do mundo.


 

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