sábado, 27 de outubro de 2012

Libélula Esvoaçante


Vamos lá - se é que esse título atraiu alguém - sobre o que é que vou falar? Quem se lembra?

Desculpem crianças, se sou chata nessas lembranças, mas acontece que certas coisas realmente aconteceram e vocês perderam! E nem a Internet, que é fofoqueira, conta tudo!

Vou falar sobre um cara importantíssimo na história da cultura popular nacional, um cara que ,se fosse americano, já tinha virado filme, e que, na época de sua existência, apesar de toda sua popularidade, era desconsiderado pela intelligentzia , achavam isso e aquilo dele. E não era nada disso. Um bon vivant, sem dúvida, mas um bon vivant com ideologia, nada alienado.

Só pra vocês terem uma idéia da importância do carinha - pera lá! carinha não, acabou ficando gordão, pois gostava dos prazeres da vida! - ele é o responsável pelo lançamento de nada menos nada mais que Roberto Carlos. É! E do Erasmo, e do Ronnie Von e do Simonal e da Gretchen.

Pronto, meus colegas matusalênios, já sabem de quem estou falando?
Carlos Imperial!

Carlos Imperial conta sua história como um figurante que topava tudo: levava tapa na cara, torta, caía no chão, tudo bem, era com ele mesmo. Nascido em Cachoeiro de Itapemirim, terra do Rei, criou o tipo Cafajeste, logo seguido por Jesse Valadão. Foi faxineiro da TV Tupi, e fez tudo. Produtor, ator, diretor de cinema e teatro. Roteirista, cantor, pianista, produtor musical.
Nos anos 60 era tido como um bocoió alienado, pois nem era tropicalista nem era mpbista. Nem Chico nem Caetano. Fazia sucesso! Estourou os primeiros lugares com a canção cantada pelo mais desafinado intérprete brasileiro, mas lindo de morrer, Ronnie Von:

“A mesma praça , o mesmo banco, a mesma flores e o mesmo jardim, tudo é igual, mas estou triste porque não tenh você perto de mim.”

É autor de um dos piores versos do cancioneiro, alojado nesta canção:
“ senti que os passarinhos todos me reconheceram “

Dose, né?
Genialmente horrível.
O cara trouxe o roquenrol pro Brasil. Fez Wilson Simonal ser o rei da comunição e criou versos deliciosos (quem tem mais de 40 vai cantar junto rindo)

“Pra ter fom-fom trabalhei trabalhei”

“Eu era neném, não tinha talco, mamãe passou açúcar nimim”


Nem vem de garfo que hoje é dia de sopa
Nem vem de escada que hoje o incêndio é no porão
esquenta o ferro e passa a minha roupa
que este ano vou botar pra quebrar
sacundi sacundá sacundin cudimcundá


Ator de mais de 30 filmes, juri do Flávio Cavalcanti junto com a fantástica Leila Diniz (segundo consta, vivia atiçando-a, chamando-a para chamegos, aí um dia ela disse: vem agora, e ele amarelou! A partir desse dia viraram os melhores amigos do mundo) , Participante ativo do gostoso programa comandando por Blota Júnior, Esta noite se improvisa, programa este que nos apresentou o irmão mais novo de Maria Bethania, um tal de Caetano Veloso, e que dividia a torcida entre ele e Chico Buarque..
( Agora arrebentei: já matei de inveja toda a geração nascida após os anos 70, que só teve o Qual é a Música entre Gretchen e a turma do Tchan )

Este era o Carlos Imperial, que, não contente em ser o que era, passou a participar dos concursos de fantasia!

Uma explicação para quem nasceu há poucos 30 anos: nos carnavais, concursos de fantasia mobilizavam a minha geração . Era melhor que Big Brother com as brigas entre Wilsa Carla e o resto . Nós criancinhas adorávamos as fantasias de originalidade e eu esperava ansiosa a revista Manchete com as fotos das fantasias de luxo para vestir com roupas de rainha as minhas bonecas de papel . E era um lugar de boiola, embora essa palavra ainda não existisse, dizíamos Fifi , efeminados, frescos. Mas, num dia, sem mais nem menos, adentra Carlos Imperial vestido de Libélula Esvoaçante!
E passou a fazer parte dos concursos!

Gozador, apesar de , como eu ter dito anteriormente, não ser levado à sério pela inteligentizia, mandou um cartão de natal histórico para o presidente e os generais: uma foto dele mesmo no vaso sanitário obrando.
Isso lhe valeu 6 meses no xadrez. Seis meses em cana, deu o seu recado, fazendo-se , se não porta voz, porta imagem de grande parte do povo brasileiro.

Bravo, Imperial!

Pensa que a vida desse cafajeste-inteligente-workaoolic-produtor-músico- cineasta parou por aí?
Rá!

Com a abertura, e retorno de Brizola, Brizola organiza seu partido como o exército de Brancaleone, e apresenta não só Cacique Juruna como Agnaldo Timóteo e, é claro, para vereador, Carlos Imperial!
Ele mesmo! O cara que mandou aquele cartão cartão de natal agora está na câmara dos vereadores, pois não sairia do Rio que ele não era besta.
Vizinho de bairro, morava alí, no primeiro andar, esquina de Bolivar com Barata Ribeiro.

Morreu aos 56 anos. Não devia. Faz falta hoje
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Este journal é em homenagem a três jovens usuárias do multiply, três filhas de figuras importantíssimas na nossas vidas! E eu fico toda besta quando vejo seus nomes e nem acredito que estou a dois graus de separação desses ícones. Como elas são low-profile, mantenho seus nomes em silêncio, mas não de seus pais, que cada um da seu modo foi responsável por nossas coragens, abriu caminhos da criação e dos movimentos. Cada um desses nomes nos faz falar mais baixo, e ter os olhos brilhantes.Cada um merecendo um post aparte, que eu, normalmente escreveria, mas a presença de suas filhas aqui, me inibem de ternura e respeito: os já idos Leila Diniz e Paulo Afonso Grisolli, e o vivíssimo , talentoso, genial, corajoso Sergio Ricardo.

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