quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Tempo de amoras

A partir de hoje minhas manhãs tem novo dono: as amoras!
Colho com a alegria infantil de exímia catadora de conchas em Copacabana e ávida antecipo os sabores: sorvetes, geléias, sucos.. De hoje em diante as amoras participarão da minha mesa! frango com amoras, saladas.. 
Preparem-se, pois elas irão perseguir os paladares da terra do sempre!
Ah! é como é generosa a amoreira! Como um Natal em setembro ela se enfeita. 
É a única das árvores inteligente. Permite um acordo entre mim e os pássaros: para mim, apenas os galhos baixos! Abelhas e formigas também tem vez, a amoreira é comunista! Rubra!
Aliás, que Deus me proteja e ninguém seja assassinado enquanto colho amoras,pois,certamente eu serei a primeira suspeita. Elas me dão sua doçura e sangue, colho com as mãos sem luvas e encho minha boca gulosa com as mais suculentas e gordas.
A amoreira tira a forra, salpica a blusa da copacabanense como quem diz: isso é lá roupa de colher amora?
Enquanto isso o beija-flor se desespera: quem é essa intrusa com dois cães aos seus pés que invade meu território? seu barulho helicoptero de asas faz música protetora do ninho. 
A amora me dá o doce e eu lhe dou palavras.
É o que tenho pra dar.
O balde vai pesando na altura do cotovelo, seguro-o como bolsa e , se as mãos assemelham-se a criminosas, os braços arroxeiam imitando pancadas. Lingua roxa como o grapete da infancia. 
O vento debulhou muitas amoras na véspera,e o chão se cobre colorindo as botas brancas e as patas dos cães.
As amoras são didáticas. Oferecem seus frutos perfumados e quentes se ao sol. Retirar do galho, meter boca e apertá-lo com a língua contra o céu da boca deixando escorrer a doçura é também rezar. 
Se oferecem alguma resistência, mesmo estando negros macios e brilhantes, é sinal que ainda há um pouco de acidez. Deixe para amanhã! Mas se cairem facilmente em suas mãos, manchando-as, aí é presente.
Eu, que achava amoras eram coisas de chiclete e gelatina, nem mesmo acreditava que existiam, agora sei que a brincadeira " você gosta de amora? vou contar para seu pai que você namora" é real!
amora , o nome já diz: amor, namoro, moradia, ora!
Com o balde cheio, adentro a cozinha bem-disposta. 
Congelo um bocado, outro bocado vai para a panela virar geleia, quer dizer, algo semelhante, pois não entendo de pontos nem de pectinas e o açúcar é pouco. Vira uma polpada deliciosa,pronta para queijos e molhos e biscoitos e bolos  e tortas mas que minha "nora adora a hora da amora!"
A casa fica rica do anagrama aroma!
E, gente! amanhã tem mais!! 

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