domingo, 9 de setembro de 2012

O mundo a ser revisitado que Monteiro Lobato Criou

Somos tão traumatizados pela censura dos anos passados, quando a ignorância e o autoritarismo mandava prender Moliere, que a qualquer semelhança com  restrição já saímos bradando pela tal  “liberdade de expressão”. Com isso, acabamos aceitando outros arbitrarismos  e terríveis perseguições. Uma pena. Mas é assim que se vive, ou, que, pelo menos, ao que parece, concordamos em viver no momento.
Recentemente, por maquiavelismo, ignorância, pressa ou incompetência, uma manchete  induziu as pessoas a pensarem que o livro “Caçadas de Pedrinho” de Monteiro Lobato, pai de todos nós escritores para crianças, estaria sendo censurado. Nem entrarei no mérito da verdade pois já foi muito bem  contada aqui. Ih! Abaixo-assinados, gritos e brigas  entraram em cena na internet (não sei se no asfalto também, ando longe da vida urbana) Imagino que essas pessoas, também por pressa (afinal, quem lê tanta notícia? Já dizia Caetano) ignorância, princípio de defesa de toda e qualquer liberdade,  ou sentimento de classe, cada uma por um motivo  embarcaram na fraca manchete. Mas, o que realmente me apavora foi o fato , se foi verdade, do Ministro da Educação afirmar que” não vê racismo no livro” . 
Dá medo.
O livro caçadas de Pedrinho termina com a seguinte frase: 
“ Tenha paciência- dizia a boa criatura. Agora chegou minha vez. Negro também é gente, Sinhá..” 
Acho que ela não se referia apenas ao privilégio de andar em cima do lombo do pacato gramático rinoceronte Quindim.  Seria subestimar  Lobato  considerando-o  ingênuo ou alienado, não concordam?
Sim, a “boa criatura” é a Tia Nastácia. Ao longo do livro o narrador usa as seguintes expressões ao falar sobre ela: negra, a boa negra, a preta, a pobre negra. Pobre negra é a sua predileta.  A personagem Emília,  neste livro, diz que" as onças vão comer até Tia Nastácia que tem carne preta."  E  ela não é corrigida, coisa que ocorre quase  sempre que abre sua torneirinha de asneira. Mas isso é fala de boneca de pano. Já o próprio narrador descreve a situação da chegada das onças assim:.” Tia Natácia, esquecida de seus numerosos reumatismos, trepou, que nem uma macaca de carvão, pelo mastro de São Pedro......”
Reumatismos sim, afinal, Tia Nastácia tem 70 anos e ainda é a empregada do sítio. Alguém estranharia o fato da professora esclarecer aos alunos que foi  na década de 70 que  empregados domésticos começaram a ter direitos trabalhistas?
Ora,  ao longo dos livros infantis  do autor a perícia culinária da Tia Nastácia é cantada em prosa e verso! Seus bolinhos alimentaram São Jorge na lua, seu cafezinho, segundo ela mesma, “tem visgo”, quem prova não quer mais sair do sítio, e outras tantas guloseimas. No entanto, o livro de culinária mais famoso há décadas ( do qual sou a mais feliz  recente ganhadora) se chama “  Dona Benta”, logo da “velha” que, ao que se saiba, nunca entrou na cozinha para amornar uma água. Vá entender.
Sinto a necessidade de esclarecer esses pontos pois tenho certeza de que Monteiro Lobato  seja muito mais incensado do que lido. Dezenas de pessoas  entre seus 30 e 40 anos que enaltecem o autor, duvide-o-dó que tenham lido a obra.  Talvez um único livro, certamente viram a adaptação televisiva. Mas ler tudinho como fiz e tantos da minha geração? Raro. Tanto é que, ao perguntados sobre quais outros livros que adoravam na infância ficam ah.. é... ah.. é... Quem leu Monteiro Lobato  e gostou certamente leu e vibrou com outros livros, pois, se assim não fosse, sua missão teria sido um fracasso.
Ah! E não é apenas expressões racistas a respeito de negros, caro Ministro, Emília é tratada pelo autor como uma pessoa prática pois  “ciganinha como era costumava tirar partido de tudo”, isto é, ganhar vantagens, presentes, dinheiro. O grifo  é meu.

Jovem,quando eu era pequena, não estranhava o tratamento dado à Tia Nastácia, sabe porquê? Na minha casa a cozinheira também era uma senhora negra que vivia na cozinha e pitava cachimbo e falava errado e eu, como Narizinho, ajudava a catar feijão.(No livro, tia Nastácia fala felomeno , em vez de fenômeno, e outras  diferenças)  Caso quisesse ver TV junto com a família, ficava à porta da sala sentada em um banquinho sem encosto. Na minha casa e na maioria das casas. Tirava folga dois domingos ao mês, recebia a metade do salário mínimo e não tinha férias.  Jovem, a canção de carnaval era “ o seu cabelo não nega mulata porque és mulata na cor, mas como a cor não pega , mulata, mulata quero o seu amor” e o samba” ai meu deus que bom seria que voltasse a escravidão eu pegava a essa mulata e prendia no meu coração  e depois a pretoria que resolvia a questão” .É isso  o que queremos na nossa sociedade?
É este o mundo em que vivemos hoje? Faz sentido? Mesmo sendo divertidos, românticos sambas? É isso o que nós queremos tocando nas rádios, sendo cantados nas nossas escolas?  Você sabia que um diretor de um colégio em 1971 proibiu de uma negra ir de cabelo solto ao colégio porque atrapalhava a visão dos alunos?
Agora já sabe, jovem. Se chegou até aqui não tem mais desculpa.

Então, ninguém acharia nada demais que o Conselho de Educação recomendasse a contextualização histórica   de Geografia de Dona Benta explicando que o estado de Mato Grosso não é mais aquele ou que a população do mundo mudou e até aproveitasse para  mostrar os movimentos sócio-políticos do mundo. No entanto, gritam se falam em recomendar a contextualização histórica no que tange o racismo. Assustador. Ao que parece, a conselheira , apesar de ter comido mosca na primeira distribuição,  está ciente do que pode acontecer em uma sala de aula se um aluno começar a ofender o outro de “negra beiçuda”, como Emília constantemente o faz ao longo dos livros, ou “macaca de carvão”. É crime e a professora vai ter de assumir as conseqüências. A prova de que a conselheira está certa  é ver como tantos leram a notícia por alto ou sem refletir , ou mesmo concordam com a discriminação. É dinheiro do contribuinte gasto em compras de livros. E livro é para ser lido e não pra ficar enfeitando estante.
Bem, o assunto não terminou,nem suas derivações, mas o tempo para ler , imagino, já. Então, como diz o Rei Roberto: “ quantas vezes eu tentei falar que no mundo não há mais lugar para quem toma decisões na vida sem pensar” 

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