sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Cidade sem plateia




A coisa é a seguinte. Quase todo mundo que conheço é artista de alguma forma. Ou pinta, ou canta, ou escreve,ou faz teatro, filme  ou compõe. Somos todos artistas. E, graças a deus , a internet permitiu ampliar mais ainda o campo dos artistas, ficou mais barato. Dá pra escrever sem pagar um revisor, dá pra publicar por unidade, dá para desenhar sem comprar tintas importadas e ter ótimos resultados com vários plug ins, dá pra gravar em casa suas canções e consertar os desafinos, enfim: quem não era artista , virou!

Ora, que o ser humano é talentoso, todo mundo sabe. Não há um monge que não cante no Mosteiro de São Bento como não há uma freira que não pinte lindos miosótis em papel vegetal. E, se recuarmos um pouco na história, veremos que as casas brasileiras no Império , todas tinham piano.
Só pra pincelar a minha moderna família, de um lado minha avó cantava óperas, pintava, costurava, bordava, tocava piano. De outro, a outra avó, tocava piano e bandolim. Meu pai tocava gaita além de desenhar magnificamente bem, minha mãe pintava telas. E ninguém era artista. Ninguém se considerava artista. Era normal. Ah, claro, TODOS faziam versos. Todos. Até um tio malandro, antes de morrer me declamou seus versos, bem bonzinhos, que fez para uma amada.

Então, uma coisa que devia ser excelente que é a possiblidade de se expressar e ser lido, visto, nem que seja por 10 pessoas fora do seu ciclo familiar, virou um saco. Pois a maioria confunde a possibilidade de expressão com a capacidade de expressão. A partir daí, começamos a receber convites para shows, vernissages, lançamentos de livros e discos. E, apesar de artistas, ainda sabemos somar e diminuir, é só fazer as contas para verificar que ninguém, principalmente quem é artista, tem dinheiro pra comprar tanto livro e cd e show e quadro. Não dá. Pode somar aí, que só se tenha 10 amigos. Digamos um produto cultural por pessoa. 10 CDs a 20 reais, lá se foram duzentinhos, e mais o show, mais duzentinhos, e mais o transporte, o que se come, mais quinhentinhos.
E como todos somos artistas, só conhecemos artistas. Se comprarmos todos os livros lançados, não teremos grana para o Saramago, que, convenhamos, é de muito melhor qualidade do que a literatura produzida por nós.

Além desse déficit da bolsa, ou do bolso, o que era um lance afetivo, bacana, fica um saco. Somos bombardeados por mensagens de propaganda, tanto dos eventos quanto apenas para manter acesa a chama e , pior, saímos da categoria de amigos para entrarmos na categoria de público, platéia.

Claro que não foi apenas a facilidade de produção do objeto cultural que modificou o eixo. Foi também nossa culpa afetiva que diz que tudo o que  a gente lê é lindo e inteligente e o incauto acredita e se lança.

Mas vai passar.
Enquanto isso, pra quem quer ver seus livros impressos, em unidades, e , quem sabe, alguém comprar, um site ótimo faz isso pra você: http://clubedeautores.com.br. Eu já estou lá com Amor Coisa pra Gente grande! 
E me aguardem! muitos mais estão por vir! Mas até eu tenho de fazer conta pra comprar meus próprios livros.
Rá rá!

(o título Cidade sem Plateia  foi devidamente surrupiado de uma canção de Alexandre Lemos)


(outro p.s. Na época que escrevi isso ainda não havia esse jeito de arrecadar dinheiro para a compra antecipada do show, o que é um troço muito legal, você paga para a ajudar a figura a gravar seu cd. Se ela não arrecadar a grana que pede, ela devolve. Mas, no momento, já tenho 5 pedidos!!!)

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