domingo, 9 de setembro de 2012

Censo sem senso


Uma vez o professor de história do colégio pirou. Achou que  a gente estava colando e mudou o jeito da prova. Fez fila A e fila B, pegou o livro (que ninguém tinha) e saiu inventando perguntas na hora. Ninguém sabia nada, claro. Acabada  a lista de perguntas,
Bia levantou-se e entregou a prova em branco. E o professor Proença disse:
- Não pode entregar em branco.
Olhamos um para  o outro e riimos. Então, inventamos as respostas. Meu colega ao lado, Sérgio ,escrevia um poema sobre o antigo Egito. Lembro de minhas respostas:
- O que o crocodilo representava para os antigos egípcios?
R. Uma grande crocodilagem.
- Quem foi Rebeca?
 R. Foi não, professor! É. Minha vizinha
E por aí seguia. Eu e todos. Ao entregar minha prova e sair, vi na prova de Marcelo um crocodilo desenhado.
Éramos jovens e criativos. Tudo diversão.

Hoje veio uma mocinha aqui no sítio me contabilizar.
De cara me pergunta quantos banheiros eu tinha em casa. 
A primeira coisa que me passou pela cabeça foi perguntar se ela estava apertada.
Contive-me.
Respondi.
E, como eu sou sortuda, o meu questionário era o pequeno.
Queria saber a minha idade , eu não ligo de responder, mas sei que, se fosse a minha mãe a resposta seria: eu não digo a minha idade nem pro confessor!
A mocinha , tadinha, 21 anos e já casada, cumpria sua tarefa de boi acompanhada da sua simpática mãe. 
Quanto ganha? perguntou. Como meu salário é pago pelo governo, eu disse. 

O  nome das pessoas..
Porque querem saber o nome? Querem saber quantas Suelens nasceram depois de "Dallas" pra quê?

Perguntei  a ela se eu podia não responder
Ela me disse que eu era obrigada a responder. E me mostrou a lei. Se eu não responder pago a multa de DEZ salários!!!!!!

Liguei para um amigo advogado, ele nunca tinha pensado em não responder... iria ver. Preocupante.

No meu caso, não há porque mentir, ja´que sou funcionária do governo e eles já tem meus dados.
Mas,já imaginou quem não é? Nosso censo virará a minha prova de história da adolescência!

O papel que ela me mostrou afirma que as informações que eu der só serão utilizadas para fins  estatísticos. SÓ!! como se fosse pouco.
A mocinha estava assustada comigo, mesmo eu tendo elogiado seu anel e seu cabelo.
(talvez por causa disso) 
Ainda ninguém tinha se recusado a responder ou questionado a legitimidade do censo.
- Menina, eu disse, Jesus nasceu no meio de estrume de vaca por causa do censo! 
Seus olhos arregalaram.
- Mas não são informações íntimas...
- São. O número de banheiros da  minha casa é de foro íntimo. Entendo que seja interessante para um país conhecer seus habitantes mas daí a me OBRIGAR a responder sob pena de multa, é aviltante! No censo passado havia espaço para escrever: recusou-se a responder. Agora, com essa 
maquininha ganhando da caneta,se você não responde a máquina se recusa a prosseguir.
Hoje, menina, perguntam-me quantos banheiros eu tenho. Amanhã vão me perguntar quantas vezes eu vou ao banheiro por dia! Já imaginou o que a indústria farmaceutica pode lucrar
com essa informação? Informação é poder, menina.
Ela olhou-me triste: mas a gente não pode fazer nada.. tem mais deles do que de nós..
- Não! falei inflamada. Somos em maior número! eles tem mais poder, mais grana. E se tiverem mais informações terão  mais ainda. Precisamos ter o direito de não responder!

A mãe dela disse com um brilho no olhar:
-Meu marido também acha um absurdo..
A garota, começando a se libertar da cartilha disse: mas a culpa não é  minha..
- E eu fico feliz que você tenha arrumado um dinheiro extra, mas não pare de pensar , de refletir.  É minha obrigação como mais velha e professora te dar outros pareceres,
aconselhar e ensinar, assim como a de sua mãe. 


Acho que o pai da menina vai receber um jantar melhor esta noite e um carinho mais caprichado. 

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