quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Por que fotografo

Se eu pensar no meu pai vou vê-lo com uma máquina fotográfica na mão. Sempre registrando. Talvez seja por isso, por afinidade com meu pai, por trazê-lo de volta e mais perto.

Ele me deu sua máquina caixote, aquela caixa em uma embalagem de couro que era apoiada na barriga e o motivo era visto de cabeça pra baixo.  E, com ela, comecei a tirar fotos de ângulos especiais, de teias de aranha, de silhuetas.

Ah,mas era tudo caro e demorado. Meses  de espera com o filme na máquina pra revelar; escolher com cuidado o momento pra não perder a foto, e oH! o custo da impressão! Não, não era pro meu bico. Acabava que fotos ficavam restritas às viagens de férias e aniversários.
Mas com o advento da digitalização uau! que coisa boa! compra-se a máquina em 12 suaves prestações e sai-se por aí clicando  a vontade e vendo na mesma hora o resultado! 

Nunca me tive como uma grande fotógrafa, ao contrário de vários amigos e conhecidos. Eu sabia que eu podia fotografar um rosto bem. Para mim não há e não havia gente feia. Mesmo as pessoas mais tímidas, mais infelizes com suas aparências, eu via , e vejo, nelas uma beleza real. E conseguia, e consigo, mostrar isso nas fotos.  
Agora, longe de tudo e de todos, diariamente saio com a câmera nos meus arredores, na própria casa. E chego a tirar mais de 50 fotos por dia. Dessas, elimino um terço pelo menos. O lugar é o mesmo, o percurso é o mesmo  mas não há dia em que eu não veja uma novidade. 

 Mas, por que registrar?
Não será pelas fotos que vou me eternizar. Talvez, tempos depois que eu já tenha ido para o andar de cima, alguma foto minha possa aparecer na web atribuída a Luis Fernando Veríssimo, Einstein ou Clarice Lispector. Acho difícil, mas é possível. 

Nem mesmo tenho como organizar tantas fotos no computador, tenho preguiça de denominá-las e são tantas.. Além do mais minha máquina não é uma brastemp, muito pelo contrário. Custa 400 reais, o que é muito para o salário de 600 mas não é nada comparada às dos fotógrafos profissionais que custam tanto quanto uma moradia. E está quebrada, ainda na garantia, mas quebrada. ( o cabo de transferência não funciona, há uma  lentidão incrível no foco e veio sem tampa, coisa que improvisei com uma tampa de requeijão)

Então, porquê?

Sei que hoje fotografo bem. Não só pelas palavras de admiração e incentivo que recebo no facebook, afinal, vivemos no mundo do aiquelindismo, todo mundo elogia todo mundo com seus ai que lindos e falam mal por trás. Mas ah! minha irmã elogia. Aí sei que é verdade! Os íntimos tem uma capacidade incrível de serem francos. Como se a justificativa das alianças de casamento ou familiares desse aval para críticas das mais contundentes. Então, se a irmã elogia.. a coisa é pra ser levado a sério!

Além disso, percebo que muitas das minhas fotos fazem com que algumas pessoas avaliem seus modos de vida. Não se trata só de apreciação estética, vai além.Pensam e comentam: Será que sou feliz vivendo na cidade? Como nunca percebi que  uma simples nuvem poderia assumir tal forma? Uma formiga é assim? 
E, como o carneirinho da canção, passam a olhar pro céu e a olhar pro chão. 

Mas, por que fotografo se não é nem registro nem arte? Apenas expressão?
Também não, pois não éapenas  o produto final que me interessa: é o processo. 
Caminho como quem caça um tesouro! 
Vasculho escondidos entre matos e luzes, percebo ângulos, semelhanças, cores e tons. E me acalmo. Eu que não consigo esperar um bolo ficar pronto no momento certo, sou capaz de sentar-me durante alguns muitos minutos aguardando um beija-flor aproximar-se de uma determinada pétala. 

E os motivos? Sou atraída por arco-íris, borboletas , passarinhos coloridos e pores do sol como todo mundo. Fascinam-me as silhuetas. As formas semelhantes. O diminuto. As surpresas. 
Uma teia de aranha com orvalho ou uma chave enferrujada , para mim, trazem poesias seculares. 

Aí clico. De volta ao computador, as surpresas são muitas. Perdas de foco em motivos ímpares. Descobertas inimagináveis ! Como esse voo.

Fotografar é uma forma de meditação. Nada de mal ocorre no meu pensamento. Mergulho no mundo das imagens e das essências. Fotografar é aprender a perder. O pássaro que voa antes do combinado, a nuvem que se desfaz. E é, principalmente, dividir.  

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