sábado, 25 de agosto de 2012

Carta aberta à jornalista Brun e seus adeptos

Recebi várias cópias de um artigo assinado pela senhora. Chamo-a de senhora, embora a foto a mostre como jovem, por conta do teor do artigo. Como trata dos jovens em geral e se exclui do grupo, concluo que a natureza da foto seja privilégio genético, já que não percebi  esforços artificiais para aparentar juventude. Então, a senhora deve ter mais de 45 anos, daí o pronome de tratamento.

O fato da senhora ter emitido sua opinião , apesar de demonstrar ausência de maior reflexão, não me causou espécie. É direito constitucional emitir opiniões, mesmo equivocadas, falhas, superficiais, parciais. Direito tanto quanto o nosso direito à felicidade. Apesar da felicidade não estar ainda na nossa constituição como direito fundamental do homem a sua busca, há vários estudos encaminhados no congresso para incluí-la. 
Pasmem: temos direito a buscar a felicidade sim e , ao consegui-la usufruí-la! 

Continuando, o que me causou espécie foi a repercussão , principalmente entre mulheres, de seu texto.  A princípio, não dei importância, mas quando uma pessoa que eu considero lúcida e bem informada assinou embaixo, fiquei preocupada. Aí, como velha senhora, educadora, mãe e ativista no que tange a felicidade, me vi obrigada a respondê-la, assim como a seus seguidores.

Logo de início há um grande equívoco: a caracterização da atual geração de jovens como a mais bem preparada e despreparada etc e tal.  De cara, dois conceitos centrais vindos não sei de onde. Em primeiro lugar, sobre que jovens estaremos falando? Sobre os jovens do interior do Brasil com enxada na mão? Sobre os guerrilheiros palestinos? E o que é ser jovem? Até 30 anos? 15 anos também vale ?  No meio do texto, a senhora responde a questão: jovens da classe média que viajam. Ah bom.  Então, não estamos falando sobre todos, mas sim de uma minoria que.. o que mesmo? Classe média! Qual classe média? O jovem de Ipanema que o pai é profissional liberal? Ou a classe média de são João do Meriti que a mãe   tem um salão de cabeleireiro ?  É importante saber sim, pois a de Ipanema tem o sucesso financeiro como direito adquirido por gerações e a do subúrbio sabe que é uma conquista diária, de um dia pra outro  a casa pode cair.

Ainda, a generalização sobre a geração. Como assim mais preparada que já houve? A minha dos anos 70 sem dúvida alguma foi mais bem preparada do que a atual. Apertar botões, mexer em tecnologia- coisa que fazemos com um pé nas costas- não é preparo: é adestramento. Pensar , refletir é preparo. Desculpe, mas quem nasceu a partir dos anos 80 não sabe o que é preparo. E olha que meus pais eram mais ainda. Estudavam  latim e grego além do francês e inglês.  A queda da qualidade educacional é um fenômeno, infelizmente, mundial. Com certo esforço eu desmonto um computador. Demoro mas faço. Mas, as bobagens que vejo escritas e faladas sobre, por exemplo,  Nitsche são irreversíveis! 

Certo, então me espanto ao ler que os jovens não se esforçam. Pelo menos os dois ou três que a senhora conhece. Já que estamos na base do achismo, do casuísmo, falando de quem a gente conhece e vê,como a senhora mesmo destaca, eu lhe digo: minha experiência é a oposta! Há 8 anos me aposentei e o que vi durante os 30 anos de magistério superior foi um grupo de jovens esforçadíssimo. Passavam noites em claro com os dedos cortados pra entregar trabalho da disciplina Plástica; estudavam longe de suas casas, muitos sem dinheiro pra condução levando bolos , brigadeiros,c alcinhas, bijuterias para vender aos colegas e assim pagar a refeição. Tinha boa vida? Tinha, mas eram raros. E mais, os meus atuais empregadores são jovens! Tudo na faixa dos 30! 

   A senhora diz que seus jovens reclamam dos chefes, dos empregadores. Que boa notícia! Cara jornalista, no nosso mundo, o nosso sucesso como empregado costuma estar diretamente relacionado à flexibilidade de nossa coluna! 
Enfim,  o texto traz vários outros equívocos de análise culpando o indivíduo de certos movimentos ou estagnações quando a causa está no sistema.    Mas aí a gente precisaria  de uma conversa bem mais longa. 
O quadro que vejo dessa juventude “classe média que viaja” é de um consumo de drogas com receita médica  que não havia na minha geração, por exemplo, tudo pra aguentar esse esforço mal pago que os confina em baias em seus trabalhos. Quando a senhora fala que eles admiram “quem passou em medicina sem estudar que ficou na balada” eu pergunto: caso houvesse um gênio assim,-  nem o Dr House fica de bobeira- , era ou não pra admirar e ser assunto de congresso e invejar?  Eles não são burros. Apesar de despreparados filosoficamente sabem que quem venceu não o fez por mérito e sim ou por ter nascido em berço esplêndido , ou por ser amigo de alguém, ou por chantagem, raro , muito raro é aquele que realmente está no topo por mérito. Deve ter um. Imagino que sim, sempre há uma exceção.  Nem a biografia do camelô mais famoso do Brasil o livra da sorte: quando Manoel de Nóbrega deu de PRESENTE para SS o baú da felicidade... É .. felicidade, essa coisa que a gente tem direito sim. E , de preferência, de papo pro ar, pois afinal, trabalho não enobrece ninguém, foi praga de Deus, lembra? Da dor do parto a gente já se livrou, agora falta nos livrar do trabalho!

E deixemos os nossos jovens buscarem a feliciade como um direito! Ralam pra caramba e odeiam seus chefes sim . Não deviam ralar tanto , deviam ter mais tempo de lazer e deviam agir contra os chefes chatos e não só reclamarem. Mas aí  já é outra história. 

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