sexta-feira, 12 de junho de 2015

O Pastorzinho- Uma Biografia não autorizada

O pastorzinho- Uma biografia não autorizada
Angela Carneiro
Havia um pastorzinho muito pobre que andava a pastorar. Sua mãe estava doente, era o pastorzinho que cuidava de tudo, mas sua mãe precisava de exames caros, de remédios. O pastorzinho tinha uma namorada. Os dois se amavam muito. E a moça engravidou. Ah! Mas eles não tinham condições de terem aquele filho. Eram jovens, mal tinham o que comer e ainda havia a mãe doente. Assim, com muito sofrimento, com muita dor, a moça , por amor ao seu pastorzinho avisou que tinha tomado umas ervas e que não haveria mais filho. Ambos choraram muito. Por conta dessas ervas , a moça acabou morrendo. O pastorzinho, então, saiu de sua casa e se pôs a tocar do ré mi fá fa fá, do ré do ré ré ré...
Enquanto isso, o Rei andava muito irritado. Nada o deixava feliz. Não dormia, e isso o irritava ainda mais. Os médicos reais já tinham tentado de tudo. Nada dava certo.  Um dia o vizir caminhando pelas terras ouviu a flauta do pastorzinho.. do sol fá mi mi mi...
-oH! Que lindo som! Certamente isso vai agradar ao rei!
Aproximou-se do pastor e o convidou pra tocar para o rei, e o pastor, que era muito bom, aceitou. O Rei ao ouvi-lo teve lágrimas de emoção e dormiu pela primeira vez em muitos meses. Acordou revigorado e chamou o pastor novamente:
-Dar-te-ei tudo o que vês se tocares para mim.
-Agradeço, mas não posso, tenho uma mãe doente e ela está na fila para um transplante e..
-Cale-te! Se você me seguir, me obedecer, nada mais vai faltar para sua mãe. Ela terá amanhã mesmo os melhores médicos!
Dito e feito. No dia seguinte, ninguém sabe como, o nome da mãe do pastor passou para o primeiro lugar na fila, ela fez a cirurgia, o pastor tocava para o rei agradecido.
-O senhor foi muito bondoso, ó meu rei. Poderei agora voltar às minhas cabras e tocar para minha aldeia, agradeço por tudo.
-Não senhor! Você não precisa mais ser pastor.  Já marquei várias festas aqui no palácio, todos conhecerão sua arte..
-Mas senhor..
- Nem mais nem menos, você será um sucesso.
Dito e feito. O pastor tocava todos os dias para públicos mais seletos. Príncipes de todas as terras vinham ouvi-lo, e, até mesmo seus  aldeões, uma vez ao ano , podiam ouvi-lo na praça. Claro que o pastor ficava cansado, mas os me´dicos reais o enchiam de poções revigorantes. Assim se estivesse cansado, uma poção o fazia vibrar. Se estivesse  excitado demais, uma outra o fazia dormir.  Eram tantos os compromissos que muitas vezes nem mesmo sabia  em que reino estava.
Pelas ruas via-se camisetas com seu nome, bonecos com seu rosto, e agora sua flauta não era mais feita por ele. Havia uma nova com seu nome escrito que poderia ser vendida em várias feiras. De ouro, prata, junco, todas com seu nome.
Muitos outros flautistas surgiram copiando seu estilo.

- Senhor, disse o pastor, ouça só essa nova música que compus. Não aguento mais tocar as mesmas..
O rei replicou: não, fique quietinho, não mude. Mas não se preocupe, já contratei outros compositores para você. E você tocará também nas praças uma música para anunciar as taças reais que estou colocando à venda.
-Mas... –
-Claroq eu você vai ganhar uma porcentagem da venda das taças, e sua mãe está boa, não está? Continua com os médicos? Aliás, e aquela mocinha.. soube que ela está gravida.
-Sim vamos ter umf ilho, um menino!
-Que ótimo. E agora você terá mais condições em ter os melhores mestres de tudo, equitação tudo!
Os anos passavam, o povo vibrava a cada apresentação do pastorzinho, seu filho já era um rapaz e o pastorzinho estava velho. Ainda tocava mas não com a mesma força. Eram tantos os remédios..
O Rei encomendou um livro sobre a vida do pastor, depois viraria filme. Seria lançado com grande pompa. Quando o pastorzinho o leu ficou horrorizado:
- Mas  não devem contar que minha amada fez um aborto! Isso é particular!
-Ah, mas seus fãs vão adorar!
- Mas doi muito lembrar disso. E meu filho não sabe que fui preso e apanhei quando eu tinha a idade dele, nunca disse a ele! Eu paguei a minha dívida.
-Ah, mas o povo tem o direito de saber!
- E isso aqui é mentira, nunca bati em mulher!
- Não tem importância, quando o livro for lançado você processa o autor . Vai ser muito bom para as vendas
-Mas até lá todos vão achar que eu bati! Eu vou ser apedrejado, e o que meu filho vai passar na escola?

-Não se preocupe com isso.. afinal você está velho... eu já durmo bem.. bem demais...  tlin, tlin tlin...

terça-feira, 2 de junho de 2015

Sou do tempo

Eu sou do tempo em que..
- a TV tinha de esquentar
-à noite não havia programação na TV
-As tampinhas de refrigerantes e cervejas se chamavam chapinhas e  havia uma cortiça dentro. Abridor de garrafa era gênero de primeira necessidade.
- não havia lata de refrigerante, a maior coca-cola que existia se chamava Coca Família, dava para quatro  copos, o que era suficiente para uma refeição. E as garrafas eram chamadas de “cascos” e eram retornáveis.
Sou do tempo em que
-a geladeira dava choque, a lata de lixo era forrada de jornal, tinha pouco lixo e ,os edifícios tinham chaminés e de vez em quando havia um incêndio na lixeira do prédio e todo mundo descia com a roupa que estivesse, se camisolas ou pijamas, cobertos com um robe ou penhoar.
-Não existia papel para fritura , usava-se papel de pão, isso é, papel que embrulhava o pão,pois o pão era embrulhado e não ensacado. Mas não existia óleo de fritura, fritava-se em banha de porco ou em gordura de coco carioca.
Sou do tempo em que toda água de beber vinha do filtro mesmo, no máximo uma água lindoia em garrafa de vidro.  Nesse tempo , a gente bebia água porque tinha sede e não pra se hidratar.
-Sou do tempo em que plástico era coisa rara e se chamava Matéria Plástica. Logo, copos de festas de aniversário eram de papel, não havia copinhos de água fechados, nem de mate. Mate era vendido na praia em grandes barris metálicos pendurados nos vendedores , um de mate e um de limonada, e a gente pedia pra misturar os dois.
-Sou do tempo em que não havia adoçante, comida light, nem filtro solar. Cigarro podia ter filtro ou não, mulher fumava com piteira e surgiu  muito tempo depois uma piteira chamada Tagar que mostrava como era nojento fumar. Não existia cigarro light. Também surgiram uns cigarros coloridos com filtro dourado que, em geral, ficava sobre as mesinhas para se oferecer às visitas. Na minha casa tinha cigarro para visitas e fósforos embora ninguém fumasse.
-A gente queria ficar bem preta de praia, então passávamos óleo Johnson misturado com urucum e ficava torrando no sol durante horas  bem longe do mar. Na beira do mar só criancinhas e velhos. Para não dar bolha no nariz e na boca se usava pasta de lassar.
Sou do tempo em que não existia sandália havaiana, quando surgiu, chamava-se sandália japonesa.  E só serviam para a praia ou para ficar em casa. Mais tarde, como todas as sandálias eram brancas só mudando a cor das tiras e da sola, a gente virava a sandália do lado contrário para ficar colorida aí sim , podíamos usá-las nas ruas.
Sou do tempo em que meninas usavam anáguas, combinação, calcinha de fazenda com botão ao lado, vestido com laço atrás e vestido de festa de cores claras, bordados, feitos de organdi que espetavam pra caramba.
Sou do tempo que as mulheres iam à praia ou piscina de touca de borracha para não molharem os cabelos. Como a cabeça ficava redonda demais com a touca, inventaram uma cheia de pedaços de matéria plástica imitando flores e outra que imitava cabelo!!!
Sou do tempo em que as bonecas raramente eram articuladas, os cabelos eram colados na cabeça delas ou modelados , se elas eram bebês. O sonho de toda menina era ter uma boneca de cabelo enraizado.
Sou do tempo em que maiô tinha sainha, eram de lã ou helanca e tinham uma espuma no lugar dos seios.  Podiam ser de gorgorão também, com fecho éclair . Havia um modelo chamado engana-mamãe, pois de costas parecia um “duas peças” que também eram de pano. E muita jovem cortou seus maiôs para transformar em duas peças.
Camelô ficava de pé com uma caixinha com os produtos pendurados no pescoço. Mais tarde, apareceram uns que apresentavam coisas  no chão que só eram vendidas por eles: copo que fingia que estava com um líquido vermelho dentro e o vendedor dava susto nas pessoas; uma borracha que copiava a figurinha do gibi e depois imprimia a imagem em um pano  e algo de limpar o chão.
Sou do tempo em que havia quem dissesse “tóchico”  e “interésse” em vez de tóxico  e interesse. Por sinal, nas traduções, ninguém era traficante, todos eram contrabandistas. Era proibido falar em drogas na tv.
A fiação elétrica era envolvida em pano e os fios de telefone percorriam os rodapés e as molduras das portas.
Sou do tempo em que não havia fio dental, cotonete era caro e era de madeira, pasta de dentes vinha em um tubo metálico e era ou Phillips ou anticárie Xavier.
Água com açúcar era remédio pra tudo.
Para dor, cafiaspirina. Dor de barriga, Atroveran. Cetiva  diariamente para não gripar. Embrocação na garganta com algo vermelho.  Seringas eram de vidro e cada casa tinha a sua para garantir a esterilização. Nos olhos Optraex. Para torções iodex e lâmpada ultravioleta.
Se estivesse com sarampo, catapora coisas assim, era legal porque muita criança vinha visitar pra pegar a doença. Até criança que a gente não conhecia. O quarto ficava animado.
Não havia ar condicionado nas casas, usava-se leque.
Tudo era vendido por dúzia, não só ovos. Laranja, banana, tudo em dúzia. Nada em quilo.
Sou do tempo em que se levava pasta e merendeira de couro pra escola.
Sou do tempo que ao se ficar mocinha não se usava a palavra absorvente  e sim “modess”. E havia um troço de elástico e metal que prendia o modess dentro da calcinha. Depois umas prendadas  fizeram umas calcinhas vermelhas de poá e rendinha com plástico interno.
Falava-se à boca pequena que na América as jovens usavam tampão, mesmo se fossem virgens.
Sou do tempo em que não havia gays ou homessexuais ou lésbicas. Havia efeminados ou fifi e paraiba (por causa da música, paraíba masculina mulher macho sim senhor)
Picolé era embrulhado de papel , às vezes o papel ficava grudado nele, difícil de tirar e as vezes a língua grudava nele e machucava.
Sou do tempo em que não havia nem SUS , nem policlínica, nem plano de saúde. Médico vinha em casa e quem não tinha dinheiro para pagar ficava na fila.
Também não havia petshop.
Sou do tempo em que presente de aniversário de criança era caixinha de lenço comprada na Sloper, transparente com o lenço fazendo forma de flor; talco , água de colônia alfazema, se você tivesse sorte ganharia língua de gato da Kopenhagen ou um único Nha Benta, ou Uma caixa de balas de leite condensado que tinha forma de lápis. Só os muito sortudos ganhavam o estojo com chocolates em forma de cigarro, charuto e caixa de fósforos. Mas também se ganhava resta-um, damas, ludo, o Pequeno Químico, O Pequeno Mágico com a bola Catarina e fabuloso sangue do diabo!
Sou do tempo do Teatrinho Troll, do Clube do Guri. Mais tarde, a professora Fernanda com o Uni-du-nitê. Criança não assistia a novelas, Direito de Nascer com o Dr. Valcur era algo sério demais, mas a roupa Mamãe Dolores estampadinha com casinha de abelha ganhou as ruas.
Passava-se o cabelo a ferro, ou se ficava o dia inteiro de touca e não se podia sair na rua de touca, então, colocava-se um lenço no cabelo e um Bombril no alto da cabeça para não ficar com a cabeça arredondada. O pega-rapaz tinha dado lugar à virgula no penteado. E veio a moda do corte channel. Fim do coque banana ou do coque de cachos.
Sou do tempo em que ao se ir à praia em Copa  a gente corria até o meio do asfalto para atravessar a  Av. Atlantica em duas partes. Assistir ao mar em ressaca era um programa fabuloso, às vezes perigoso. Sempre havia alguém sendo levado pelas ondas nas pedras do Leme. As águas chegavam a invadir o interior do Copacabana Pálace.
Sou do tempo de dar corda no relógio.
Sou do tempo em que não havia faixa de pedestre, as zebras.
E a gente corria para o caminhão de coca-cola para trocar 5 chapinhas com a cara do Pato Donald no fundo por um bonequinho de matéria plástica com personagem Disney . A Kibon oferecia bandeirinhas coloridas se o palito de sorvete trouxesse uma bandeirinha marcada.
Sou do tempo da bala soft, do chicle de bola ping pong, da caixinha de chiclete adams sabor tutti fruti canela ou hortelã. Do ki-bamba, do Ki-coisa, do delicioso pirulito de chocolate Kibon e do abominável bolo de sorvete  Kibon, ó decepção!cheio de fruta cristalizada.
Sou do tempo em que leite vinha em garrafa de vidro,
não existia margarina nem máquina de lavar roupas. A lavadeira vinha com o marido pegar as roupas, fazia-se o rol de roupas, que voltam miraculosamente alvas e engomadas.
Pasmem: para se falar ao telefone com alguém fora da cidade, antes falava-se coma telefonista que faria a ligação. Se fosse para o estrangeiro, a telefonista falava na língua local. Para o interior do país, maracava-se hora. Caso viajássemos e quiséssemos ligar para casa, deveríamos ir até uma agência telefôncia e lá alguém faria a ligação , e a gente ficava esperando ser chamado.
Sou do tempo em que a tarifa telefônica era fixa e mensal não importando quanto se falasse. Ter telefone não era para todos, era raríssimo, então , muitas vezes ao se pegar o telefone de alguém este alguém avisava que era “recado”.  Um vizinho ou loja pegava os recados para quem precisasse. E  aconteciam muitas linhas cruzadas!
Sou do tempo em que não havia sinal na Rua Barata Ribeiro esquina de República do Peru e era possível parar o trânsito da Barata Ribeiro para içar um sofá  ou um piano pelas janelas. E Faxineiros ou faxineiras se penduravam do lado de fora dos prédios para limpar as janelas!!!
No Rio de Janeiro feijão era preto e ponto final.  Poderia surgir raramente o feijão branco. Mas só.
Sou do tempo que carro que nem TV não ligava imediatamente, demorava e precisava esquentar e pouquíssimas pessoas tinham carro, e era comum uma buzina disparar.
Sou do tempo do bonde, do ônibus Camões que se pagava com lindas fichas coloridas, do ônibus elétrico carinhosamente chamado de chifrudo. 
Sou do tempo do Seu Talão vale um milhão!
Ir ao cinema era a programação de todos. Podia-se entrar no meio do filme, ou da fita , ficar lá dentro o tempo que quisesse vendo várias sessões. Caso estivesse lotado, a gente sentava no chão mesmo . Era comum chegar ao cinema e ver um cartaz escrito a mão “ar condicionado com defeito”. Mas a gente não ligava, mesmo sendo verão, e assistíamos ao filme assim mesmo.
Namorar no cinema , embora obrigatório, nem sempre era fácil pois o lanterninha surgia iluminando a cara dos beijantes.  As sessões de cinema eram em horários pares, 2, 4 ,6 ,8 e 10. Aí surgiu a tal da sessão da meia noite, uma grande programação para jovens, mas eu costumava dormir nela.
Sou do tempo que a sessão de cinema consistia de trailers, jornal da tela, canal 100 e aí sim começava a fita. Depois surgiu a obrigatoriedade do curta metragem nacional , em geral documentários com cópias arranhadas e som marciânico. Depois colocaram comerciais antecipando a fita! No Cinema Um podia-se fumar numa sala envidraçada, muito legal e se comer também.
Quando a fita era em techicolor era mais legal. Ou em cinerama.
Sou do tempo em que não havia queima de fogos na praia no reveillon, só macumba e velas.
Era frequente a praia estar cheia de piche e grudar tudo no pé ou até mesmo no maiô.
No dia primeiro,várias pessoas andavam pela praia procurando as oferendas recusadas por Iemanjá. Dinheiro, joias, enfeites. E havia de se ter cuidado com os cacos de vidro.
Sou do tempo em que não havia grades n os prédios, nem interfone. As portarias ficavam abertas , podia-se entrar em qualquer prédio sem ser interrogado. Vendedores de porta em porta, nós, bandeirantes com nossos biscoitos, ou os casais de namorados que entravam em prédios desconhecidos, entravam no elevador, apertavam o botão de emergência entre dois andares e ficavam lá, sozinhos, dando uns amassos.
Sou do tempo que as estradas principais nem sempre eram asfaltadas.
Sou do tempo em que tinha de se mexer muito o achocolatado, pois não havia nada instantâneo.  E não havia Nescau. Era Qresto. Depois Toddy. Criança tomava café com leite mesmo. E a sanduicheira era em cima do fogão , se chamava “Rapitochi”. ( parece que alguns chamavam de tostex). O forno era aceso com jornal torcido já incendiado e a boca do fogão com fósforo. Aí surgiu o tal do Magiclick.
Nada tinha controle remoto. E quando surgiu controle remoto da  TV tinha um fio. Também não havia fones de ouvido, e sim o egoísta, de um lado só, para radinho de pilha.
A TV tinha no máximo 5 canais: TV RIO, TV TUPY, TV Excelsior, TV Continental . TV educativa, que variava de canal, às vezes era 9, às vezes 2.
As novelas eram ao vivo.
Quando ivnentaram o vídeo tape sua primeira aparição foi no programa do Chico Anysio. Assim como o primeiro programa feito em cores foi Carnê de Baile.
As novelas passavam primeiro no Rio ou em São Paulo.Os rolos de filmes eram enviados para os outros estados  e quando a gente viajava pra outro lugar todos queriam saber o que aconteceria nas novelas.
Faltava água no Rio com constância e também luz. Isso não nos abalava. Era normal, fazia parte da vida. Echiamos a banheira, pois todas as casas tinham banheira e tomávamos banho de cuia.  A falta de luz também não era problema já que não havia freezer e havia pouquíssimas tomadas e aparelhos elétricos em casa. Ótima ocasião pra brincar de fantasma e fazer teatro de sombras pelas paredes. Assim tínhamos velas em casa e minha  avó o lampião Aladim.
-Pipa se chamava papagaio e havia lindos deles espalhados pela orla de Copacabana. Patins tinham 4 rodas organizadas que nem carro, e bilhas e também viravam carrinhos de rolimã com pregos e martelos nas mãos das crianças e isso não era problema. Criança usava faca, ferramentas.
Motorista se chamava chofer. Lojas se chamavam “casas”. As mulheres iam à missa de saias, não podia se usar calça comprida, e véu. A Missa era em latim, o padre ficava de costas deixando ver a tonsura.
Aliás, mulher não podia ir de calças compridas ao Centro da Cidade e usavam sempre meias de seda, uma em cada perna, com ligas, não havia meia-calça e a meia tinha costura atrás.
Mendigos se acumulavam nas escadarias das igrejas e também baianas vendendo doces.
Sou do tempo em que além das cores vermelho, amarelo, existiam a gelo, a bric e  a turquesa.
Os meninos andavam pelas ruas com suas espingardas de chumbinho matando rolinhas e seus cabelos eram corte Príncipe Danilo. As meninas usavam só vestidos com laço atrás. Shorts  e calças eram para sítios, passeios de domingo.
Uma púbere estaria alinhadérrima se estvesse de saia quilt,blusa de gola rulê, meia três quartos, japona , sapato boneca de amarrar. Ou no verão de blusinha de malha sanfonada também de gola rulê, saia calça ou mini saia, ou vestido tubinho. Cinto de corrente , meia arrastão e sapato de verniz molhado do Spinelli.
Os rapazes enfiavam suas cabeças em toucas de meia para esticar os cabelos e usavam calça saint tropez, ou mais tarde, toureiro, com camisa lacoste verdadeira.
Sou do tempo do rouge nas bochechas, do erase na boca, do rímel nos cílios. Laquê fixava os cabelos ou então cerveja.
Sou do tempo do robe e do penhoar.
Todas as casas tinham um armário ou gaveta com papeis de pao, barbantes, vidros vazios . Vidrinhos vazios eram fervidos e usados para exame de fezes
Sou do tempo em que Estados Unidos se chamavam América.
E quem vinha de lá trazia um cheiro magnífico nas roupas e na mala.
Sou do tempo em que lata de lixo tinha pouco lixo e era forrada de jornal.
O garrafeiro além de gritar Garrafeiro! Pelas ruas batia a nossa porta querendo comprar caixotes, vidros e jornais.
De vez em quando uma criança armava uma venda de gibis no meio da rua.
O jornaleiro deixava trocar as revistas lidas. E la se vendia:  Bolota, Brotoeja, Gasparzinho, Brazinha. Luluzinha, Bolinha, Pato Donald, Pimentinha, Zozó, revistinhas de piada, Contos de Amor, Meu Romance, Fotonovelas, livrinhos verdes de M.Delly, bonecas de papel. Não havia a revistinha  da turma da Monica mas havia ,d e vez em quando,  a Turma do Pererê.
Os álbuns de figurinhas eram bacana, Marcelino Pão e Vinho! As Estrelas do Cinema! E as figurinhas precisavam de cola. Não eram auto-colantes. E não havia cola branca. A gente colava as coisas com: goma arábica, grude de farinha, cola-tudo, araldite. As figurinhas repetidas viravam bafo-bafo. Todo menino andava com um bolo de figurinhas no bolso.
Também gostavam  de futebol de botão, e omelhor botão era de vidrilha, isso é , o vidro do relógio.
Sou do tempo em que presunto e maçã eram coisas de rico.
Um tijolo de sorvete era o suficiente para sobremesa de uma família com 5 pessoas.
Sou do tempo em que a feira da providência era na Lagoa.
Havia um “dinheiro FICO” um papel que algumas lojas credenciadas trocavam por mercadoria.
Sou do tempo em que Banco não tinha segurança.

E ainda dizem que não sou velha...




sexta-feira, 28 de março de 2014

Educação: recado aos professores 1

Ligando o ventilador:
Leio , ouço, alguns professores esforçados  do ensino público falando mal do bolsa família "  porque metem os meninos que não querem nada na escola pertubando aqueles que querem. Então que a bolsa tinha de ter vínculo com nota além da presença." 

Antes, aviso: os EUA já deram grana para quem tirasse boa nota, não só grana como passeio em limusine e o escambau, e , pasmem: graças a deus as notas não melhoraram em nada!!
É uma esperança.
Sou pedagoga cheia de carimbinho, e isso só tem validade para explicar que sempre o tema educação sempre me interessou e muito.  E vou te contar : se você professor consegue que um adolescente, qualquer um, de qualquer classe social, se interesse por classificação de orações, faça estudo do caso! Mande o jovem ao médico.  Se for uma turma, aí divulgue! Escreva um livro, faça crowdfunding do livro que eu vou comprar!
Aí, como aposentada, me imagino na pele dos docentes desanimados e penso: o que eu faria no lugar deles? Como convencer a uma turma de jovens num mundo consumista que só recebem subcultura como informação, bombardeados por um tipo de expressão importada, que só pensam lógica e saudavelmente em sexo, que objeto direto é importante?
Para começar, creio, o próprio professor tem que amar objeto direto, senão, dificilmente vai passar algum interesse. Fora isso, ele tem que conhecer profundamente o objeto direto, saber de sua importância nos tratados de paz, no registro dos mais altos sonhos da humanidade.

Se o professor sente isso, acho que já é um bom começo para uma ótima e interessante aula. 

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Sou infeliz, dizem, e a culpa é do governo?

É.. esse julgamento  está mostrando como a infelicidade pessoal é forte. Alguns que se dizem budistas estão comemorando e fazendo piada sobre prisão.. Vou parafrasear Caetano: se vocês são no dia a dia como são em política e budismo, estamos feitos! Entendo  que a luta de classe exista, não é novidade; entendo a raiva que há por não conseguir um aeroporto vazio e caucasiano de preferência "como a cor não pega, mulata, quero seu amor", seu único privilégio....  entendo a raiva que dá por acreditarem em mérito e aí, olham para vocês mesmos e pensam: "bem, se eu acredito em mérito, devo ser um zero a esquerda, já que não sou riquíssimo, e agora ainda me tiraram a possiblidade de crescimento e tenho de dividir o lugar no avião , férias tão merecidas, trabalhei tanto para ter duas semanas de férias na Europa.. tenho de dividir com o povo.. Esse povinho que não quer trabalhar porque estao usufruindo de 70 reais por mes , se fossem limpar minha privada ganhariam muito mais! Ficam tendo filho pra ganhar mais, se tiverem 18 filhos ganham a enormidade de 1300 reais! " Ok, entendo tudo isso, não é novidade, mas não ter compaixão e se dizer budista???? Não ter compaixão e se dizer cristão??? Ah! a sede de vingança por suas frustrações!  Sei que são forças arraigadas na história, mas, pelo menos, se se dizem cristãos, budistas, tentem agir como tais. É para seu próprio bem, vão ser menos amargos e vão conhecer pessoas mais legais,criativas! Podem até pertencer ao time de pessoas já idas como  Niemeyer, Darcy Ribeiro, Jorge Amado, Portinari, Saramago..  Ainda existe esse quilate de conversa e criatividade! " Ah..não.. eles deviam estar errados.. quem deve estar certo é o especialista do  telejornal... Quem tá certo é o Bill Gates... o quê? ele roubou? ora.. mas quem não o faz? E qual o problema de sonegar imposto já que eles não aplicam o dinheiro direito? e o povo tem mais é que morrer no agreste sem médico mesmo... cubanos.. aff  Agora, com licença que eu vou à Missa " 

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Biografias autorizadas

“ O peixe é pro fundo das redes/ segredo é para quatro paredes”

Estamos vivendo um momento democrático muito bacana em relação a uma nova lei a respeito da publicação de biografias. De um lado, um grupo, que defendo, comandando por expoentes do nosso cancioneiro reivindicando o direito à sua privacidade. Enquanto a pessoa esteja viva que haja necessidade de autorização e que haja também participação nos lucros sobre a obra.
De outro, um grupo que defende o direito de público, editora e biógrafo de fazerem o que bem quiserem: que lucrem sobre a vida do outro, que leiamos o que bem quisermos. E sob esse desejo usam a bandeira da liberdade de expressão e comparam a autorização a um ato censor.

Há alguns anos, fui chamada para  um trabalho. Achei as condições alvitantes.  Como  achei que eu  podia estar com alguma distorção de avaliação, consultei uma amiga que também tinha sido convidada, e, segundo o aliciador, tinha aceitado.  E ela , ao telefone , disse que nunca aceitaria trabalhar em tais condicões. O tempo passou e nos vimos em uma situação que o empregador  poderia se candidatar a um cargo e eu , EM PÚBLICO,  citei o nome da minha amiga ao argumentar contra. Ela se revoltou com a minha citação e falou “ não diga meu santo nome em vão”. Na época, achei exagero, ora, era um fato, ela tinha me dito.
Hoje, vejo que ela tinha toda razão. Felizmente esse ano tive a oportunidade de pedir desculpas. Perdi a convivência com uma pessoa criativa e inteligente por não ter percebido na hora que EU PRECISAVA DE SUA AUTORIZAÇÃO para comentar uma conversa telefônica. Era uma conversa privada. Ela podia ter mudado de ideia; podia ter avaliado melhor as consequências, enfim, eu não podia ter falado em nome dela sem ter combinado antes.
E assim as biografias. O direito à privacidade tem que estar acima do lucro . O fato de ser uma figura pública não me dá o direito de conhecer sua porta fechada. E ainda fechamos a porta ao entrar no banheiro.
Há o fato, há a versão do fato.  Além da possibilidade da real calúnia, há o ridículo provérbio que acreditamos como se tivesse vindo da própria boca de deus “onde há fumaça há fogo”. Não , pode ser vapor  e só confundimos!
Pasmei lendo a opinião em O Globo de Hermínio Bello de Carvalho. O fato dele gostar de biografias autorizadas ou não  é pessoal, não nos dá direito à invasão de privacidade desautorizadamente.  Não é enchendo os tribunais de processos longos que vamos garantir a nossa idoneidade.  Não se trata apenas de proteção à calúnia. O fato de alguém gostar de sair enfiando alfinetes nas pessoas na rua não dá direito à ninguém fazer isso.

Ah! e há o argumento traumático da censura.. epa!   Lei, regras sociais não são censura.  Quando se pede para não jogar lixo no chão não estamos censurando ninguém. É um trato.. Censura é quando eu te impeço de ter sua opinião e te condeno por isso. Quando decido autoritariamente o que podem LER e não o que pode ser COMERCIALIZADO. No caso, o que queremos é que não se PUBLIQUE  ganhando por isso. Posso ter um blog contando a vida do Chico Buarque. Se  ele achar que estou caluniando, vou responder por isso nos tribunais. Mas ele não vai me impedir de ter um blog. Mas não posso cobrar de ninguém a leitura do meu blog. Nem colocar anúncios nele.  Viram a diferença? A liberdade está garantida. 
Quando escrevi a convite da Editora Ática a vida de Michelangelo uma parte do meu texto original foi vetada pela então editoria. Ora,  ela não estava me censurando, era um negócio e tinha seus argumentos, trata-se de uma parceria.  Se eu quiser publicar aqui as partes editadas, eu posso, não é censura. É Parceria!

Por outro lado, ninguém pode se adonar para sempre de uma figura pública, esperando completar os 70 anos de sua morte. Eu  não posso usar nada da Laura Ingalls sem autorização dos donos da marca. Não posso, como não pude, escrever um livro sobre a infância da Carmem Miranda porque a dona da marca não quer, acha que já tem uma, e não quer e ponto, sem ler, sem saber, sem nada.  E também temos que nos proteger dos herdeiros! Um filho adulto não pode simplesmente bloquear a obra do pai porque brigou com ele. Por outro lado, uma figura pública que usa os recursos governamentais para shows, publicações etc também não pode ter essa parte da sua vida escondida.

O tema é palpitante. É essencial. Fala de direito e deveres, fala da coletividade, fala de liberdade. E principalmente mexe com fatos que tomamos como certos e não são.  O que é ser celebridade? Será que o fato das celebridades terem alcançado tal status não está vinculado às aparições em TV, que é uma concessão pública daí acharmos que é nosso dinheiro que as torna célebre e nos vemos com direito à fofoca?

Fico impressionada com o rancor que envolve as discussões a respeito.  Estamos falando de Roberto Carlos, de Chico Buarque, de Caetano Veloso, de Mautner, de Gil! Da fina flor de nossa cultura, de gente que deu a cara a tapa por nós, que nos deu alegrias infinitas.  No mínimo, vamos dar crédito a eles pois eles tem o que perder e nós estamos no nosso conforto do anonimato.  
Meu parecer é: enquanto a figura pública for viva, ou se morta, seu cônjuge e filhos menores tem o direito de autorizar. Depois, é de todos.

E que continuemos a usufruir dessa maravilha democrática!

terça-feira, 10 de setembro de 2013

A pedagogia da história


Há um tempo atrás encontrei com um ex-aluno que me disse:- Ah! eu sempre me lembro das suas aulas! Lembro particularmente quando....”
Quando aprendeu perspectiva? Quando dissolveu os pigmentos na água e descobriu as manhas da aquarela? Quando seus grafismos interpretaram as ramas das árvores?
“quando um dia você disse”olhe! Aquelas duas folhinhas estão conversando!”
Infelizmente não é só comigo que isso acontece. Carl Rogers inicia seu livro Tornar-se Pessoa exatamente contando que em geral o que fica nas recordações não é a matéria e sim seu gosto por Milk-shake de chocolate ou algo assim.
Então, como ensinar?
Um dos maiores problemas dos professores é despertar o interesse dos alunos para a sua matéria.  Alguns vão vestidos de general, outros passam filmes, outros imitam o Elvis, tudo na busca de apanhar esse passarinho fugidio que é o interesse dos alunos. Os jovens tem tanta coisa para viver! Tanto para namorar, saber de si, experimentar que uma sala de aula com alguém falando, falando, escrevendo e perguntando pouco tem de atraente. Recentemente a Universidade de Chicago fez uma experiência oferecendo dinheiro(50 a 500 dólares) e um passeio de limusine para os alunos que atingisse suas metas, mesmo assim, não deu certo, e, aqui pra nós, graças a deus!
Ontem, assistindo o início do programa Roda Viva ouvi a fala do jornalista Laurentino Gomes a respeito de seus Best-sellers e de sua posição a respeito da crítica dos historiadores. Para quem não sabe, ele é um jornalista autor de uma otimamente bem sucedida série de livros sobre a História do Brasil.  Adianto que não os li. Imagino que eu me divirta lendo-os assim como me distraio com os livros do Peninha que também foram Best-sellers de História. E acho legal que livros sobre a história de nosso país ganhem notoriedade. Não se trata disso. O que me irritou profundamente e me fez trocar de canal ao ver que nenhum dos entrevistadores rebateu a questão foi o fato dele dizer que “os professores de história o agradeciam por terem como despertar o interesse dos alunos pela História ..... (e)... a história se faz com homens e não só como Marx propôs de movimentos históricos de dominação”.
Só me restou mudar de canal e assistir ao filme da TV Escola , que recomendo a todos os professores de História que  passem  em todos os colégios que lecionem: “Arquitetura da Destruição”.
Como eu não fazia parte da roda-viva, embora sofra as consequências de professores de história que acham que as amantes de João VI , ou mesmo a Monica Levinsky sejam tão importantes para as guerras , para as decisões de se bombardear a Siria quanto a dominação, quanto a economia gerada pela indústria bélica, só me resta escrever sobre minha área de conhecimento  que é a pedagogia.
Todos nós brincamos de cubinhos quando crianças e nem por isso viramos arquitetos. Todos nós ouvimos histórias , contos de fadas, e nem por isso somos criadores da Pixar. Minha geração brincou de cowboy mas não largou a cidade para criar cavalos e vacas, muitos, ao contrário, prefiram a bolsa de valores.  Então, não é o que se faz  na infância e na juventude que vai direcionar com certeza a um conhecimento ou atuação. Como escritora de livros infantis  há 20 anos, vendo meus leitores crescerem, em verdade vos digo, muitos deles continuam leitores sim, mas ainda de livros infantis. Não fizeram a passagem para o livro adulto.  Seu o  máximo de complexidade é  Harry Potter  ou O  Senhor dos Aneis e similares. São suas preferências, assim como romances ou a chamada “literatura de mulherzinha”.  O fato de ser um leitor na infância não implica necessariamente que se torne adulto  leitor.  Mas, é claro que se não for leitor na infância terá muito  mais dificuldade de se tornar um leitor adulto. Sem contar os outros benefícios da leitura precoce, como a fantasia, a imaginação, o vocabulário, o pensamento etc e tal, tudo isso que a gente já sabe.
É bem possível que um aluno que saia da sala de aula de  História onde o professor discorreu sobre as amantes de D.João VI ou seu hábito de comer galinhas apenas saiba isso, pois o resto não fez sentido para ele. O resto era vazio, já que não se falou sobre os movimentos históricos. E ele sai de lá e, no  máximo, vai votar no candidato sem amantes ou vegetariano e vai esquecê-lo e, mais tarde, se queixar dele nem se lembrando que ele só está lá porque levou seu voto.

E se isso acontece é porque as próprias faculdades de História também não estão formando seus professores com a  profundidade devida, é claro. O discurso é bacana e com a pressa do dia a dia o professor vê no fato de ser simpático ao aluno um aliado não só para os resultados escolares como  para acalmar sua própria existência. Sim, a turma vai cair na gargalhada, caro professor, mas não será um bom cidadão se ficar apenas nos hábitos alimentares dos seus governantes e não nos movimentos históricos.